terça-feira, 5 de maio de 2009

Dificuldades de aprendizagem, de onde vem?

Dificuldades de aprendizagem: de onde vem o problema?
Agência EstadoPor Julia Trevisan Falta de concentração durante as aulas, desinteresse por qualquer assunto ligado à escola e as temidas notas baixas. Quem tem filhos em idade pré-escolar sente arrepios só de pensar que a criança possa enfrentar algum tipo de dificuldade que retarde ou comprometa seu processo de aprendizagem.
E apesar de estes problemas fazerem parte do cotidiano de muitas famílias, a investigação de suas causas e a busca pelo melhor tratamento nem sempre são feitas da maneira correta. Para reverter o caso e garantir à criança uma boa volta por cima, a melhor receita é uma parceria firme entre a escola e a família.O primeiro relato da dificuldade costuma (e deve) vir justamente da escola, apesar de alguns pais mais atentos conseguirem perceber que a criança não está bem ou rendendo tudo o que poderia. “A escola deveria estar apta a fazer esse diagnóstico, por meio de conhecimentos específicos, como por exemplo identificar problemas no desenvolvimento psicomotor que podem prejudicar o processo de aprendizagem do aluno”, acredita Nádia Bossa, psicopedagoga que estuda o assunto há 20 anos e é autora de diversos livros, entre eles “Fracasso Escolar: um olhar psicopedagógico”. Além do baixo rendimento, elementos como a própria postura do aluno em classe, a forma como ele escreve e até mesmo o tipo de erros que comete podem revelar aspectos importantes sobre as causas da dificuldade de aprendizagem. “É o professor quem deve saber quais os requisitos necessários para o aprendizado de um determinado conteúdo”, completa a psicopedagoga. O passo seguinte deve ser a comunicação do problema aos pais e a troca de informações sobre a rotina e os hábitos da criança, além de um levantamento de mudanças recentes em sua vida. “A não aprendizagem pode ser um sintoma de que algo com a criança não está bem. Ela bloqueia o estudo inconscientemente, como um mecanismo de defesa, uma forma não muito adequada desenvolvida para não aprender”, afirma Silvia Amaral de Mello Pinto, psicopedagoga e coordenadora do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento (CAD), em São Paulo.As causas para dificuldades no aprendizado são variadas e podem vir de questões emocionais, como por exemplo uma separação dramática dos pais, um caso de luto na família ou mesmo o nascimento de um irmão. Essas situações sugam a energia da criança e impedem que ela concentre seu foco em qualquer outra coisa. “Ela fica preocupada com o assunto ou fantasiando para não entrar em contato com a realidade. E o conteúdo escolar é a realidade”, relata Nádia Bossa. “Acontecimentos novos como os citados podem gerar ansiedade e consequentemente muita agitação, o que muitas vezes é até confundido com hiperatividade”, completa.“Às vezes, o problema é mais sutil, como a falta de tempo e de organização do pai e da mãe. Trabalhar demais e deixar de lado questões como a escolha de um bom local para a criança fazer sua lição de casa, impor horários, estabelecer limites e dizer não para certas coisas pode atrapalhar”, afirma Silvia Amaral de Mello Pinto.Entre os distúrbios orgânicos estão os problemas de maturação do Sistema Nervoso Central, de ansiedade exagerada e decorrentes de efeitos de certos medicamentos que interferem no ânimo ou causam problemas de memória ou concentração. Existem ainda as dificuldades específicas em determinadas áreas, como a dislexia (troca das letras na leitura e na escrita), e a discalculia (problemas em cálculos). A falta de motivação também é capaz de prejudicar a aprendizagem e pode ter sua origem na relação da própria família com os estudos. A ligação da escola com castigos ou a algum tipo de pressão e mesmo a falta de importância dada pelos pais ao conhecimento em si são fortes desencorajadores do aluno. “Outro fator é a própria concepção de aprendizagem, que é o processo que nos torna humanos. Aprendemos a andar, a ser membro da cultura em que vivemos e aprendemos também os conceitos científicos apresentados na escola. E a aprendizagem de conceitos acadêmicos, como geografia, por exemplo, depende de aprendizagens anteriores, que são resultado de exploração do mundo, responsáveis, por exemplo, pela construção da noção de espaço”, explica a psicopedagoga Nádia Bossa. Por exemplo, crianças com dificuldades para reconhecer os lados direito e esquerdo dificilmente consequem aprender coisas como pontos cardeais ou a referência de leste e oeste.ou até mesmo a posição relativa dos numeros. “O processo de aprendizagem escolar necessita de um repertório preexistente, de experiências vividas na infância e bem mediadas, ou seja, nomeadas e interpretadas pela família”, diz Nádia. Ajuda de todos os ladosPor todos esses motivos, antes de encaminhar o problema para um especialista, é importante que a escola realize uma investigação dentro dela mesmo e proporcione uma discussão entre professores e coordenadores. Providências como a troca de professores, aulas reforço e grupos de apoio que ajudem a criança podem ser necessárias. “A recomendação é que a escola se adapte ao aluno, que haja uma parceria e flexibilidade para rever posturas e metodologia”, diz Nádia. “É interessante, inclusive, que as escolas tenham em seu quadro psicólogas e psicopedagogas.”Nos casos em que a parceria família-escola não é suficiente, recomenda-se recorrer a um psicopedagogo, que ou é um psicólogo especializado em psicopedagogia ou um pedagogo com especialização, mestrado ou doutorado em psicopedagogia. “É realizada, então, uma espécie de ‘fisioterapia cerebral’, um trabalho que exercita as funções cognitivas ativando o sistema nervoso”, explica ela. A troca de escola deve ser considerada em alguns casos. O papel da família também é vital na retomada do interesse pelos estudos. “Os pais devem incentivar a lição de casa, olhar cadernos e mostrar interesse pelo que ela está aprendendo”, recomenda a psicopedagoga Silvia Amaral de Mello Pinto. “Às vezes, pequenos detalhes fazem uma grande diferença”, acredita ela.Tomar as providências corretas garante não só uma criança sem problemas para desenvolver seu aprendizado como adultos livres de traumas e problemas de auto-estima causados pela experiência da escola.Para saber mais: Livro “Dificuldades de Aprendizagem”, de Nádia Bossa.

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